Wallerstein assinala que: "As economias-mundo estám divididas em Estados do centro e áreas periféricas. Nom digo Estados periféricos porque umha característica das áreas periféricas é que o Estado indígena é fraco, abalando entre a nom existência (quer dizer, umha situaçom colonial) e a existência com um escasso grau de autonomia (quer dizer, umha situaçom neocolonial)".
Precisamente Wallerstein exemplifica a sua distinçom entre a periferia de umha economia-munod e a sua arena exterior com a análise das diferenças existentes no século XVI entre a Rússia (arena exterior) e diversas partes da Europa oriental (periferia) e entre a área do oceano Índico (arena exterior) e a América hispana (periferia).
"A periferia de umha economia-mundo –di Wallerstein— é aquele sector geográfico dela em que a produçom é primariamente de bens de baixa categoria (isto é, de bens cuja mao-de-obra é pior remunerada), mas que é parte integrante do sistema global da divisom do trabalho, dado que as mercadorias implicadas som essenciais para o seu uso diário. A arena exterior de umha economia-mundo está composta por aqueles outros sistemas mundiais com que umha dada economia-mundo mantém qualquer tipo de relacionamento comercial, baseado parcelarmente na troca de objectos preciosos, o que por vezes se tem chamado "comércios ricos". (11)
Wallerstein completa dizendo que:
"...Existem também áreas semiperiféricas que estám entre o centro e a periferia numha série de dimensons, tais como a complexidade das actividades económicas, a força do aparelho de Estado, a integridade cultural, etc. Algumhas dessas áreas eram áreas centrais em versons anteriores de umha certa economia-mundo. Outras eram áreas periféricas, promocionadas mais adiante, por assim dizer, como resultado da geopolítica mutante de umha economia-mundo em expansom.
A semiperiferia, todavia, nom é um artifício de pontos de corte estatístico, e também nom é umha categoria residual. A semiperiferia é um elemento estrutural necessário numha economia-mundo. Estas áreas jogam um papel paralelo ao representado, mutatis mutandis, polos grupos comerciantes intermediários num império. Som pontos de compilaçom de qualificaçons vitais amiúde politicamente impopulares. Estas áreas intermédias (como os grupos intermédios num império) desviam parcelarmente as pressons políticas que os grupos localizados primariamente nas áreas periféricas poderiam noutro caso dirigir contra os Estados do centro e os grupos que operam no seio e através dos seus aparelhos de Estado. De outra parte, os interesses localizados primariamente na semiperiferia achm-se no exterior da arena política dos Estados do centro, e acham difícil perseguir os seus fins através de coligaçons políticas que poderiam estar abertas para eles se estivessem na mesma arena política". (12)
No segundo volume de O sistema mundial moderno (O mercantilismo e a consolidaçom da economia-mundo europeia, 1600-1750) Wallerstein adverte que:
"No século XVIII, o século do mercantilismo, Espanha e Portugal nom fôrom, nom pudérom ser, mercantilistas, e deste jeito tornárom-se em Estados semiperiféricos, correias de transmissom dos interesses das potências do centro às regions periféricas". (13)
E que
"durante o século XVII Espanha se tornou como muito numha correia de transmissom bastante passiva entre os países do centro e as colónias espanholas. Espanha importava dos países do centro tecidos e peixe seco procedente de Terranova, consumindo-os na Espanha ou, quando nom era totalmente esguelhada polo comércio de contrabando, exportando-os às colónias. Espanha pagava em parte em exportaçons de matérias primas da península, em tintes das colónias e, principalmente, em ouro e prata americanos, o atractivo essencial do comércio com a Velha Espanha". (14)
Wallerstein explica que no século XVIII duas potências semiperiféricas figérom similares esforços para tentarem acabar com as restriçons estruturais que lhes impugera a economia-mundo: Espanha e Suécia. A grande guerra do Norte (1700-1721) foi para a Suécia o que a guerra de Sucessom espanhola para Espanha. Ambas fracassárom. Em 1721 Suécia perdeu Livónia, Estónia, Íngria e Carélia, a maior parte do Báltico oriental, a maos da Rússia e parte das suas posses na Alemanha a maos de Prússia. Espanha perdeu polo tratado de Utreque as suas posses na Itália e Países Baixos, Gibraltar na própria Península e tivo que conceder privilégios comerciais na América à Inglaterra. Mas para a Suécia e Espanha os seus esforços fracassados supugérom polo menos evitarem cousas piores. Enquanto nom se resolveu a longa luita de cem anos entre os dous Estados do centro (Inglaterra e França), 1ª fase da luita pola hegemonia na economia-mundo, Espanha e Suécia pudérom manter as suas funçons e nível de potências semiperiféricas, utilizando a sua margem de manobra para desempenharem um papel maior do que o que realmente podiam abranger. De facto, os Borbons espanhóis tentárom a recuperaçom interna e o ressurgimento externo da Espanha. Mas quando em 1763, no final da guerra dos Sete Anos, França resultou vencida e ficou claro que a hegemonia era para a Inglaterra, Espanha –banida França como peça na situaçom colonial americana— tivo que defrontar sozinha durante dous decénios a ameaça británica. E durante a renovada expansom da economia-mundo a partir de 1750, Espanha perderia o seu império americano.
Essa perda concretizaria-se durante e imediatamente depois da "guerra mundial" que selou a hegemonia de Gram Bretanha na economia-mundo. Em O capitalismo histórico, Wallerstein fai umha breve síntese sobre as bases objectivas do chamado equilíbrio do poder, que impediu que na economia-mundo capitalista o sistema interestatal se transformasse num império-mundo. E para isso observa "os três casos em que um dos Estados fortes conseguiu temporariamente um relativo domínio sobre os mais, relativo domínio que podemos chamar hegemonia. Os três casos som a hegemonia das Províncias Unidas (Países Baixos) em meados do século XVII, a da Gram Bretanha em meados do século XIX e a dos Estados Unidos em meados do século XX.
Em cada um dos casos, a hegemonia chegou após a derrota de um pretendente militar à conquista (os Habsburgo, França, Alemanha). Cada umha das hegemonias foi selada por umha "guerra mundial", umha luita maciça, em terra, altamente destrutiva, intermitente, de trinta anos de duraçom, em que intervinhérom todas as potências militares importantes da época. Estas luitas fôrom, respectivamente, a guerra dos Trinta Anos de 1618-1648, as guerras napoleónicas (1792-1815) e os conflitos do século XX entre 1914 e 1945, que deveriam ser concebidos como umha única e longa "guerra mundial". Cumpre vincar que, em cada um dos casos, o vencedor fora umha potência primordialmente marítima antes da "guerra mundial", mas transformada em potência terrestre a fim de ganhar esta guerra contra umha potência terrestre historicamente forte que semelhava estar a tratar de transformar a economia-mundo num império-mundo.
No entanto, a base da vitória nom foi militar. A realidade primordial foi de carácter económico: a capacidade dos acumuladores de capital situados num Estado concreto de competirem com vantagem com todos os mais nas três principais esferas económicas: a produçom agroindustrial, o comércio e as finanças. Especificamente, durante breves períodos os acumuladores de capital no Estado hegemónico fôrom mais eficientes do que os seus concorrentes situados noutros Estados fortes, e destarte tomárom posse dos mercados mesmo dentro das áreas "domésticas" destes últimos. Cada umha destas hegemonias foi breve. Cada umha delas chegou ao seu fim em boa medida por razons económicas, mais do que por razons político-militares." (15)